O fenômeno chamado reality shifting vem crescendo rapidamente entre adolescentes e jovens nas redes sociais, especialmente após a pandemia. A proposta parece sedutora: “mudar” a própria consciência para uma realidade paralela ou fictícia, muitas vezes inspirada em universos como Harry Potter, séries ou animes.
Os praticantes descrevem experiências intensas de visualização, roteiros imaginários (scripts) e afirmações repetidas para “acessar” essas realidades desejadas. Muitos relatam sensações físicas vívidas, como formigamentos, flutuação e alterações perceptivas, reforçando a sensação subjetiva de que houve uma mudança de realidade.
Embora frequentemente apresentado como uma forma criativa de imaginação, meditação ou entretenimento, o shifting merece atenção e reflexão crítica.
Isso porque o fenômeno está associado a processos de escapismo psicológico, autosugestão, dissociação e ao chamado sonhar acordado mal-adaptativo (maladaptive daydreaming).
Imaginar não é o problema
Fantasiar e criar mundos internos faz parte da experiência humana. A imaginação pode favorecer criatividade, elaboração emocional e expressão simbólica.
O problema surge quando a fantasia deixa de ampliar a vida e passa a substituí-la. Em muitos casos, o shifting pode funcionar como uma tentativa de escapar de sofrimento emocional, ansiedade, solidão, sensação de inadequação ou dificuldade em lidar com frustrações reais.
A literatura científica ainda não afirma que o shifting “cause” transtornos mentais. No entanto, estudos sugerem possíveis riscos quando essas práticas passam a ocupar excessivamente a vida psíquica, especialmente em adolescentes vulneráveis. Entre os possíveis impactos estão:
- dificuldade de concentração e engajamento na vida cotidiana;
- isolamento social;
- prejuízos acadêmicos;
- redução do interesse pelas atividades reais;
- aumento da evitação emocional;
- maior frustração com a realidade concreta;
- tendência aumentada à dissociação.
Meditação não é fugir da realidade
Vivemos uma época marcada pelo aumento do sofrimento psíquico, pela hiperestimulação e pela dificuldade de sustentar a atenção. Nesse contexto, práticas que prometem uma fuga rápida da realidade tornam-se especialmente atraentes.
Mas saúde mental não se constrói pela negação da realidade. Ela se desenvolve quando ampliamos nossa capacidade de habitá-la com mais consciência e presença.
A prática meditativa autêntica não nos ensina a escapar da vida. Ela nos ensina a permanecer presentes nela — inclusive diante do desconforto, da insegurança e das dificuldades inevitáveis da experiência humana.
Na meditação, a imaginação pode ser utilizada de forma construtiva, contribuindo para o desenvolvimento de qualidades internas, como empatia, bondade e compaixão. O objetivo não é substituir a realidade por uma fantasia idealizada, mas fortalecer recursos emocionais para lidar de maneira mais consciente com o sofrimento e com a complexidade da vida.
Além disso, a imaginação também pode nos ajudar a antecipar situações e a nos preparar emocionalmente para elas. Imaginar, por exemplo, como conduzir uma conversa difícil pode favorecer respostas mais conscientes, coerentes e alinhadas aos próprios valores quando a situação acontecer concretamente.
Desse modo, a imaginação pode ser uma importante aliada no desenvolvimento humano e na transformação pessoal.
O problema não está em imaginar, mas em utilizar a imaginação como substituta permanente da experiência concreta.
Enquanto o shifting reforça o afastamento experiencial e mecanismos de evasão psicológica, a meditação fortalece a presença, regulação emocional, consciência e contato com a realidade.
Talvez uma das tarefas mais importantes da educação emocional contemporânea seja justamente esta: ensinar presença em uma cultura cada vez mais marcada pelo desejo de escapar da realidade.
Precisamos fortalecer presença, não ausência!
Referência:
SOMER, Eli; CARDEÑA, Etzel; CATELAN, Ramiro Figueiredo; SOFFER-DUDEK, Nirit. Reality shifting: psychological features of an emergent online daydreaming culture. Current Psychology, [S.l.], p. 1–13, 30 out. 2021. DOI: 10.1007/s12144-021-02439-3. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s12144-021-02439-3.
